Entrevista

ENTREVISTA NO FACEBOOK COM FERNANDO STARLING (2012)

1) Na sua opinião, quais os diferenciais que qualificam e tornam um criador de Buldogue Campeiro ser realmente um bom criador da raça?

O processo de criação, como o próprio termo diz, pressupõe o planejamento, a produção e o aperfeiçoamento, especialmente no caso de uma raça canina em formação, como é o caso do Buldogue Campeiro. Na minha opinião, um bom criador de Buldogue Campeiro é aquele que consegue alcançar uma evolução constante e permanente do seu plantel, tanto em termos de qualidade (saúde, temperamento e morfologia) quanto em termos de homogeneidade dos seus cães. Como o processo de criação exige investimento e tem que ser sustentável economicamente, é também importante que o bom criador não deixe de atender bem aos seus clientes, tratando-os com respeito, honestidade e seriedade. É ainda papel de um bom criador divulgar a raça e o seu trabalho em favor dela.

2) Que dicas você daria a um novo criador ou aos proprietários de Buldogue Campeiro quanto à alimentação, cuidados com a saúde, exercícios, treinamentos/adestramento, exposições, e acasalamentos ?

Os filhotes de BC devem ser alimentados preferencialmente com ração superpremium (dispensando qualquer tipo de suplementação alimentar), sendo mantido um controle permanente de parasitas, e com espaço livre para o exercício espontâneo. Cães criados em espaços restritos, mesmo com passeios diários devem ter especial atenção ao problema de permanência em pisos lisos (cerâmica e porcelanato, por exemplo) que deterioram os aprumos. Não se deve esquecer que o BC é um cão muito afetuoso e exigente de atenção por parte do seu dono e membros da família, sendo recomendado o adestramento para obediência durante a fase jovem (dos 6 aos 12 meses). As exposições representam um importante espaço de divulgação da raça (especialmente para os criadores), lembrando sempre que o criador não deve nunca ver seu plantel com um olhar de proprietário (síndrome do “melhor cão do mundo”). Quanto aos acasalamentos, estes devem sempre ser planejados e estudados de forma a maximizar as chances de produzir novos exemplares com menos defeitos e maiores qualidades que os seus pais. Como genética não é matemática, aí reside um dos grandes desafios da cinofilia.

3) O que voce aponta como diferenciais na sua criação?

Resumidamente, os pontos fundamentais que apontaria como diferenciais do Canil Molosso di Jerivá são: (1) Trabalho Inicial de Pesquisa e Reunião de Material Genético bastante diversificado como matéria prima para o processo de seleção (ex: cães de linha nova de sangue provenientes do Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Erechin-RS, além dos OEBs); (2) Escolha criteriosa dos cães de referência para o trabalho de seleção (ex: Urso, Tambo, Storm e Truck, todos isentos de displasia) com base nas suas qualidades em termos de saúde, morfologia e temperamento; (3) Programa de seleção das características desejadas baseado em fechamentos de sangue (inbreedings) e acasalamentos entre parentes mais distantes pertencentes a mesma linha de sangue (linebreedings); (4) Elevada Capacidade de Produção (com mais de 1.000 filhotes de BC já produzidos e registrados em mais de 200 ninhadas nascidas entre 2002 e 2012) acelerando bastante o processo de seleção e fixação das características desejadas; (5) Renovação Permanente do Plantel, com Plena Condição de Seleção e Manutenção dentre os exemplares produzidos, daqueles que serão os futuros padreadores e matrizes do Canil e que irão representar bem o processo de evolução da nossa criação; (6) Ampla divulgação dos resultados alcançados ao longo dos 10 anos de criação de BC no website do Canil Molosso di Jerivá (www.buldoguebrasil.com.br), onde são apresentadas TODAS as ninhadas produzidas (da ninhada No 1 até a de No 181 estão publicadas, faltando atualizar o website para as últimas 32 ninhadas mais recentes).

4) Suponha que você tomou a acertada decisão de adquirir um filhote de Buldogue Campeiro. Quais os pontos mais importantes que vão te levar a fazer a escolha definitiva para levar para sua casa um filhote macho e também para uma fêmea ?

Como a escolha de um filhote, por parte de um criador, pode obedecer a diversos critérios, dependendo do objetivo pretendido especificamente para esse filhote no seu projeto de criação, prefiro sugerir os pontos básicos a serem observados por um proprietário interessado em adquirir um BC. Independentemente do sexo, o adquirente deve verificar em primeiro lugar os indícios de temperamento do filhote (os filhotes devem ser alegres e brincalhões e aqueles filhotes que se esquivam, se escondem e são excessivamente tímidos, devem ser evitados). Quanto as características físicas, o filhote deve ter a aparência de buldogue, com uma cabeça marcante e bem desenhada e a estrutura física correspondente (boa ossatura). Em seguida deve-se observar outras características como os aprumos e a movimentação do animal, com atenção especial a defeitos tais como fechamento de jarrete, pouca angulação traseira (“perna de porco”) e linha de dorso muito ascedente ou selada, etc. No que se refere ao sexo, deve-se levar em consideração, no processo de escolha de um filhote, que os machos são maiores e mais fortes que as fêmeas. Por fim, vem a cor da pelagem e as suas marcações, as quais costumam ser um fator muito preponderante na escolha de um filhote, especialmente por parte das pessoas que tem pouco conhecimento cinófilo.

5)  Quais as vantagens e desvantagens (riscos a raça) caso um criador de BCs agregue em seu plantel um exemplar (filhotes ou não) obtido através de cruzamentos de BCs com Raças Distintas e sem maiores aprofundamentos no resultado do produto final da cria ?

Em primeiro lugar, mesmo que um exemplar mestiço de BC tenha uma aparência física e também um comportamento muito próximo ao do BC, ele carrega um pacote genético distinto, que não está sendo visto e que vai se expressar quando este exemplar for reproduzir. Neste ponto, muitas surpresas desagradáveis podem surgir, especialmente se não houver um maior aprofundamento no resultado do produto final da cria, como sugerido na pergunta acima.

Aproveito a pergunta para comentar que essa questão da inserção de sangue novo no BC é uma questão bastante séria, controversa e polêmica e, que, na minha opinião, deve ser discutida em profundidade e à exaustão pelos criadores sérios e comprometidos com a raça Buldogue Campeiro. Nesta discussão, os seguintes pontos devem sempre ser lembrados:

a) PURISMO DA RAÇA BC:
Partir do pressuposto que tanto na formação da raça, onde não se sabe quais raças miscigenaram com os antigos bordogas criados soltos em matadouros, etc, quanto no seu processo de resgate, onde utilizou-se o Buldogue Inglês, foram feitas inserções no Buldogue Campeiro. É preciso parar com as “lendas” puristas de que os bordogas eram cães “puros e imaculados” que não acasalavam com cães de outras raças.

b) BUSCA DESENFREADA POR R.I.:
No processo de desenvolvimento da raça recém resgatada, notadamente entre os anos de 2003 e 2006, tendo em vista problemas de saúde que frequentemente apareciam (ex: demodicose, displasia coxo-femural) houve, por parte de alguns dos criadores de BC, dentre os quais me incluo, a necessidade de buscar cães de linha nova de sangue, razão pela qual foi feita uma verdadeira cruzada em busca de R.I.s em várias regiões do Brasil (especialmente no Estado do Paraná e Santa Catarina). Também neste processo, vários cães eram analisados pelo seu fenótipo sendo o seu genótipo uma verdadeira “caixinha de surpresas”. Alguns exemplos destes cães utilizados pelo nosso Canil foram: Tigresa, Malu, Tupã (irmão de ninhada do Tigrão do Caodominio) e Hauni Aldeia do Bulldog.

c) INSERÇÃO OFICIAL DO OEB:
Diante disso, o Canil Molosso di Jerivá fez a opção por utilizar, quando fosse necessário, buldogues de linha nova de sangue, mas com  genealogia conhecida e absolutamente dentro do padrão do buldogue campeiro (ao contrário de tantos cães por aí que recebem Registro Inicial-R.I. mas que se enquadrariam muito melhor no padrão do Boxer do que do BC). Em 2006 foram feitos os R.I.s dos Olde English Bulldogges Milady e Bope, sendo estes utilizados de forma bastante controlada em acasalamentos planejados e amplamente divulgados. Os resultados alcançados por essa iniciativa de inserção dos OEBs pelo Canil Molosso di Jerivá, ficam evidentes quando se considera que o Bope, por exemplo, foi o único Buldogue a ter exercido com sucesso o trabalho de contenção de rebelião de presos na Penitenciária de Avaré-SP além de ter trabalhado com o gado em fazendas da região e que a neta da Milady, Graúna (Nara Molosso di Jerivá) do Canil PeaoCampeiro, dotada de excelente temperamento para guarda segundo o seu próprio dono, recentemente sagrou-se vencedora do 1º Match de Buldogue Campeiro realizado no Rio Grande do Sul neste ano de 2012.  

d) OUTRAS INSERÇÕES:
Além dessas duas inserções realizadas de forma pontual e transparente no Buldogue Campeiro, a saber, a do BI na ocasião do resgate da raça (há 20-30 anos atrás) e a do OEB no processo de desenvolvimento da raça (há 6 anos atrás), tem-se notícia, sem contudo contar com confirmação oficial, de que teriam sido feitas muitas outras inserções envolvendo raças como Boxer , o. Buldogue Americano, o Cane Corso (para fixação da pelagem azul),  dentre outras.

e) INSERÇÃO DO GEN MERLE:
Recentemente foi confirmada a inserção de um buldogue, com genealogia 50% Alapaha.25% Cataloha Leopard e 25% OEB e portador do gen Dominante Merle em acasalamentos com Buldogues Campeiros. Tivemos conhecimento da importação deste exemplar e nos recusamos a utilizá-lo mesmo em “Testes” tendo em vista o amplo conhecimento de que esse gen Merle está associado a características deletéreas, e por isso não traria benefício algum para o BC.
Este último exemplo do gen Merle ilustra muito bem o quão vulnerável está a Raça Buldogue Campeiro à Inserções de qualquer tipo, sem que elas sejam planejadas, discutidas, controladas e avaliadas no seu resultado final para a raça. No contexto atual do Buldogue Campeiro, com mais de 3.000 exemplares registrados e mais de 50 criadores espalhados por todo o Brasil realizando os seus trabalhos de criação e seleção, não considero ser necessária, via de regra,. a realização de novas inserções no BC. Se cada criador fizer um bom mapeamento do seu material genético disponível para um projeto de melhoramento e trabalhar com planejamento realizando intercâmbios de exemplares de interesse com outros criadores, sempre respeitando a independência entre os embriões de linhas de sangue atualmente já estabelecidas na raça, poderemos ter em breve as tão sonhadas linhagens distintas e consolidadas de Buldogue Campeiro exigidas para reconhecimento pela FCI.

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